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Luiz Renato Vieira
A
capoeira é uma manifestação da cultura brasileira que tem características
muito peculiares: trata-se de um misto de luta-jogo-dança praticada ao som de
instrumentos musicais (berimbau, pandeiro e atabaque), palmas e cânticos. Além
de ser um excepcional sistema de auto-defesa e de condicionamento físico, a
capoeira se destaca dentre as modalidades desportivas por ser a única
originariamente brasileira e que se fundamenta nas nossas tradições culturais.
Por tudo isso a capoeira vem obtendo cada vez mais espaço nas instituições
educacionais como escolas de primeiro e segundo graus e universidades e sendo
cada vez mais reconhecida em todas as instâncias da sociedade brasileira.
Há
uma grande controvérsia em torno da história da capoeira, sobretudo no que se
refere ao período compreendido entre o seu surgimento -provavelmente no século
XVII- e o século XIX, quando aparecem registros confiáveis, com descrições
mais detalhadas desta manifestação.
Uma
das discussões que mais envolveram os estudiosos da arte-luta brasileira girou
em torno da questão: a capoeira surgiu na África ou no Brasil? Atualmente
considera-se uma questão já resolvida, pois a grande maioria dos autores que
escrevem sobre a história da capoeira concordam com a tese de que ela teria
sido criada no Brasil pelos negros africanos trazidos pelos portugueses a partir
do início da colonização para o trabalho escravo na lavoura, na pecuária,
mineração e em atividades urbanas.
Não
pretendemos aprofundar aqui o debate sobre o surgimento da capoeira, mas convém
observar que a questão é realmente complexa. Os que defendem que a capoeira
surgiu no Brasil, apoiavam-se no argumento de não existir atualmente (nem há
registros históricos conhecidos) qualquer forma de luta criada e desenvolvida
pelos escravos nas outras ex-colônias do continente americano, que também
receberam grandes quantidades de negros africanos vindos das mesmas regiões, em
alguns casos, daqueles trazidos para o Brasil. Na realidade, esse não é um
argumento suficiente para provar a origem brasileira da luta, pois várias
manifestações culturais bastante próximas da capoeira, reunindo características
de luta e dança, já foram identificadas em outros países da América Latina.
A idéia de que a capoeira seria uma luta africana, trazida pelos cativos,
apoiava-se no fato de que ainda hoje, no continente africano, existem danças
rituais com características de luta (denominadas, entre outras, Cujuinha,
Uianga, Cuissamba e Dança da Zebra) Para alguns autores, a capoeira praticada
em terras brasileiras seria simplesmente uma variação dessas danças, que
teria se tornado extremamente útil em situações de luta corporal contra o
branco colonizador. Assim, de acordo com a organização que as comunidades
negras conseguiam constituir no Brasil nos primórdios da colonização (seja
nos quilombos, ou nas próprias senzalas, preparando os movimentos de rebeldia e
as fugas) seriam recuperados os elementos dessas danças-lutas ancestrais.
Na
verdade, a controvérsia se justifica pela complexidade da questão e pela
dificuldade na obtenção de documentos que relatem a vida dos escravos durante
os primeiros séculos de escravidão no Brasil. É sabido que em 15 de dezembro
de 1890 o então Ministro das Finanças Ruy Barbosa mandou incinerar, no âmbito
do Ministério da Fazenda, os documentos que se referiam à escravidão,
alegando que se deveria apagar da memória brasileira essa lamentável instituição.
Os historiadores atribuem tal ordem a uma estratégia que procurava evitar que
os ex-proprietários de escravos buscassem junto ao governo uma compensação
dos prejuízos que tiveram com a abolição da escravatura, em 1888.
Provavelmente esses documentos nos trariam muitas informações sobre a vida dos
escravos, suas fugas, suas formas de resistência à escravidão. Mas sua
destruição não pode ser tomada, como se faz habitualmente nos debates sobre a
capoeira, como obstáculo intransponível à reconstituição da história da
resistência à escravidão. A historiografia sobre o tema tem nos mostrado isso
constantemente.
Muito
embora seja suficientemente esclarecido que a capoeira, como a conhecemos hoje,
é uma luta surgida no Brasil, é preciso considerá-la como parte da dinâmica
constante da cultura afro-brasileira. Assim, a capoeira surgiu de um conjunto de
aspectos pré-existentes nas culturas das comunidades africanas (rituais, danças,
jogos, cultura musical etc). O aparecimento da capoeira deve ser pensado, de uma
certa forma, como as próprias artes marciais tradicionais do Oriente, que são
a expressão da filosofia de seus povos criadores e que estão integradas às
outras instâncias da vida social, como a religião e o trabalho. Sabe-se, por
exemplo, que diversas armas utilizadas nessas artes marciais derivam de
instrumentos de trabalho agrícola, e algumas cerimônias ou simbologias se
referem às tradições religiosas dos orientais.
É
assim que devemos compreender a questão: a capoeira surgiu no Brasil como luta
de resistência de uma comunidade que trazia uma imensa bagagem cultural de sua
terra de origem e que precisou desenvolver um conjunto de técnicas de ataque e
defesa em virtude da situação de opressão em que vivia durante a escravidão.
Aliás, devemos considerar que a capoeira faz parte de todo um processo de
resistência do negros no Brasil, que também se expressou na religião, na
arte, na culinária etc. Em outras palavras: era necessário aos negros não só
permanecerem vivos e lutarem pela sua liberdade, era preciso também preservar
aspectos de sua cultura ancestral.
Dessa
forma, o surgimento da capoeira se confunde com a história da resistência dos
negros no Brasil. Eis porque a maioria dos autores que escreveram sobre a questão
associam o aparecimento da capoeira ao surgimento dos primeiros quilombos no
Brasil. Alguns chegam a se referir especificamente ao Quilombo dos Palmares (que
foi o que reuniu um número maior de pessoas, cerca de 25 mil, e foi destruído
em 1694) como sendo o berço da capoeira. Já em 1928, Annibal Burlamaqui, no
livro Gymnastica Nacional (Capoeiragem) Methodizada e Regrada, destaca a
superioridade do quilombola no combate com os capitães do mato, devido a um
"jogo estranho de braços, pernas, cabeça e tronco" utilizado pelos
fugitivos. (Annibal Burlamaqui não indica a fonte dessa informação, o que a
torna duvidosa).
Desta
primeira publicação até hoje, muitos têm repetido a afirmação de que a
capoeira surgiu nos quilombos sem, no entanto, apresentar provas mais concretas.
Do ponto de vista científico, apenas se pode sustentar essa idéia como uma hipótese
a ser comprovada por estudos futuros. Porém, é verdade inquestionável que os
quilombos representavam uma atmosfera de liberdade, de recuperação dos rituais
e danças africanas e de convívio social que, somadas à situação de opressão
podem ter dado origem à capoeira.
Os
estudos históricos sobre o Quilombo dos Palmares desenvolvidos por
pesquisadores renomados como Édison Carneiro, Clóvis Moura, Décio Freitas e
Joel Rufino dos Santos, embora não se refiram especificamente à capoeira,
descrevem detalhadamente (e sobre isso há vasta documentação) as violentas
guerras travadas ao longo de quase cem anos na Serra da Barriga (que à época
se localizava em território da capitania de Pernambuco, atual estado de
Alagoas) entre os fugitivos e as tropas enviadas para a destruição do
quilombo. Dificilmente terá existido, em toda a história do Brasil, um
ambiente mais propício para o surgimento de uma modalidade de luta como a
capoeira.
Um
quadro de Johan Moritz Rugendas intitulado "Jogar Capoeira ou Danse de
la Guerre", de 1835, é considerado o primeiro registro preciso sobre a
capoeira. Neste quadro dois negros se situam em posição de luta enquanto um
outro, sentado, toca um atabaque que segura com as pernas. Outros negros, homens
e mulheres, assistem à luta (ou jogo) que se realiza.
Ao
longo do século XIX a capoeira torna-se uma nítida expressão da situação
vivida pelo negro no Brasil. As mudanças ocorridas na economia e na política
do Império vinham gerando um intenso processo de desescravização.
Lembremo-nos de que a Lei Eusébio de Queirós, de 1850, já havia proibido o tráfico
negreiro para o Brasil. A lógica do sistema econômico mundial e brasileiro
impunha a substituição do negro pelo trabalhador imigrante, e isso gerava uma
inevitável situação de marginalidade. A capoeira floresceu dessa forma, e são
inúmeros os relatos de jornais do século passado que narram as aventuras dos
capoeiras (esse nome, até meados deste século, era utilizado para designar o
lutador; a luta era denominada capoeiragem).
Naquela
época, a capoeira reunia não só ex-escravos e seus filhos, mas também
figuras importantes da sociedade. Aos poucos a capoeira foi se envolvendo com a
vida política e chegou a ser amplamente utilizada como arma na luta entre as
facções que se enfrentavam nos tempos do Império e nos primórdios da República,
sobretudo nas cidades do Rio de Janeiro, Salvador, Recife e São Paulo. Os
capoeiras eram contratados para interferir em comícios, tumultuar eleições e
fazer a segurança de figurões da política. O sociólogo José Murilo de
Carvalho, analisando as ocorrências policiais do rio de Janeiro do século
passado, calcula em cerca de vinte mil o número de capoeiras cariocas
existentes às vésperas da Proclamação da República (1889), o que nos dá
uma idéia da importância desse segmento na sociedade da época.
Muito
tempo se passou até que a capoeira superasse esse estigma de mazela social.
Pode-se afirmar que a história da capoeira nos últimos cem anos tem sido a
trajetória de sua inserção e institucionalização na sociedade brasileira.
Aos poucos foi sendo reconhecida como expressão do folclore nacional, como técnica
eficiente de luta e, mais recentemente, como instrumento educativo importantíssimo
para a consciência de nossa cultura.
Esse
processo de desenvolvimento da capoeira teve como figura chave o capoeirista
baiano conhecido como Mestre Bimba, que merecerá nossa atenção especial mais
adiante. Mestre Bimba criou por volta de 1930 a Capoeira Regional, uma variação
da capoeira tradicional (conhecida como Capoeira Angola) que incluía uma série
de inovações e métodos de ensino.
O
desenvolvimento técnico da capoeira nas últimas décadas foi imenso, e não pára
de ocorrer. O contato com outras modalidades de luta e com os métodos científicos
de treinamento desportivo têm exigido dos capoeiristas um intenso esforço de
atualização e sistematização de seus conhecimentos.